Dos grãos de cacau ao chocolate

15 12 2009

O chocolate é um dos produtos que mais causam êxtase no mercado de alimentos. Muitos são viciados no seu delicioso sabor, alguns defendem seus benefícios para a saúde e há aqueles que até falam sobre o seu poder afrodisíaco. Tudo bem, chocolate é, na maioria das vezes, a sobremesa preferida da maioria das pessoas, e não precisa ser único e exclusivo o seu formato em barra, o chocolate vai bem em qualquer prato, como bolos, tortas, sorvetes e até mesmo em pratos salgados, como é o caso do pernil de cordeiro ao molho de chocolate.

Mas será que o chocolate sempre foi essa sobremesa delicíosa que conhecemos? Qual a sua história? Qual a sua origem? Como os grãos de cacau se tormam em um produto tão cobiçado?

Vamos começar a falar um pouco sobre a sua origem, mas como trata-se de história antiga, é difícil prever exatamente o seu surgimento. Mas há evidências que as civilizações antigas na América (como os astecas) já conheciam e utilizavam o cacau antes mesmo da chegada dos espanhóis. Inclusive, teorias históricas mostram que Colombo foi um dos primeiros europeus a experimentar o sabor do chocolate. Mas será que nessa época os chocolates já eram produzidos do jeito que conhecemos? A resposta é não. Na verdade, as civilizações antigas utilizam o cacau para preparar uma bebida forte e amarga chamada de xocoatl. Foi após a sua expansão pelo território europeu que o chocolate foi ganhando novos preparos e sabores, até se tornar o chocolate em barra que hoje conheçemos.

Também não poderia deixar de citar que o cacau teve papel importante na economia da América Central Pré-Colombiana, pois os seus grãos eram utilizado como moeda. Inclusive, todos os territórios conquistados pelos astecas eram obrigados a cultivar o cacau e pagar impostos com seus graos.

Tipos de grãos

Em relação aos grãos de cacau, há três tipos utilizados comercialmente: Criollo, Forastero e Trinatario. O Criollo é considerado o cacau de melhor qualidade, porém constitui uma pequena parcela do cultivo total, algo em torno de 10% da colheita anual. O Forastero não apresenta a mesma qualidade do Criollo e é responsável por 70% da colheita anual de cacau. Por último, o Trinatario é um grão híbrido entre o Criollo e o Forastero, apresenta algumas características positivas de ambos e representa 20% da colheita anual.

Apesar desses três principais tipos de grãos de cacau, é importante citar que, hoje em dia, o cultivo do cacau é um fator de extrema importância para a produção do chocolate. Assim como o vinho, a origem dos grãos do cacau (terreno, clima, temperatura) influenciam diretamente no aroma e no teor do chocolate, o que é chamado de terroir.

Fermentação e Secagem

Após a colheita do cacau, há duas etapas de preparação fundamentais: fermentação e secagem. Primeiramente retira-se os grãos e a polpa para fermentação. Esse processo pode correr de várias formas, como por exemplo, em caixas de madeira, porém um dos métodos mais utilizado é envolver os grãos em folhas de bananeira. Todo o processo de fermentação requer em média 5 dias para a sua finalização. Durante os primerios dias de fermentação, a temperatura dos grãos é elevada significativamente, prevenindo a germinação. A principal função do processo de fermentação é produzir o aroma e o gosto percursor do chocolate, que será totalmente desenvolvido quando os grãos forrem torrados.

É importante ressaltar que o processo de fermentação por sí só não cria o sabor do chocolate, mas é no estagio de fermentação que são garantidos os principais “componentes” para que o sabor do chocolate seja corretamente alcançado durante a fase de torragem. O processo de fermentação é bastante complexo e envolve a manipulação adequada de temperaturas, além de lidar com bactérias aeróbicas e bactérias anaeróbicas. O completo mapa de reações que ocorrem durante processo de fermentação ainda não é totalmente conhecido, mas mesmo assim ainda continua sendo uma das etapas cruciais para o desenvolvimento do chocolate.

A próxima etapa, antes dos grãos serem enviados para as fábricas, chama-se secagem, que tem como função auxiliar interromper o processo de fermentação. Porém, o maior objetivo dessa fase é deixar os grãos estabilizados para transporte e armazenamento. Se os grãos não forem secados até aproximadamente 8% de humidade, eles estão sujeitos a perder qualidade significativamente. Diversos métodos podem ser utilizados para a secagem dos grãos, dependendo das condições climáticas de cada local. O ideal é colocar os grãos em superfície exposta ao sol durante o dia e que possa ser facilmente coberta à noite ou em caso de chuva.

Após os grãos passarem pelo processo de secagem, eles são transportados para as fábricas, onde existe mais um caminho de processos até chegarem o produto final. Esse conjunto de processos não são detalhados nesse post, mas incluem: Limpeza e Mistura dos grãos, Torragem, Trituração, Refinamento, Temperagem e Resfriamento.

Ingredientes

O chocolate contém poucos ingredientes que influenciam o seu sabor, textura e viscosidade.  Basicamente, a maioria dos chocolates são compostos dos seguintes componentes:

Chocolate Liquor

Chocolate liquor é o nome dado para a pasta que é extraída a partir dos grãos do cacau. É o principal ingrediente tanto no dark chocolate como no chocolate ao leite. É justamente ele que caracteriza o sabor “chocolate”.

Manteiga de cacau

A manteiga de cacau é extraída naturalmente dos grãos de cacau. A função da manteiga de cacau no chocolate é “lubrificar” o cacau e as partículas de açúcar. A manteiga de cacau também diminui a viscosidade do chocolate derretido, mas não tem grandes contribuições para o sabor do chocolate.

Açúcar

O açúcar é o segundo ingrediente predominante no chocolate dark e apresenta-se em maior quantidade nos chocolates ao leite e branco. Sua função principal é adoçar o chocolate e contrastar com o amargo do cacau.

Sólidos do Leite

Os sólidos do leite são componentes definidores do chocolate ao leite e também do chocolate branco. Os sólidos do leite contribuem para a cremosidade e o sabor suave do chocolate.

Gordura da Manteiga (Dairy Fat)

Os sólidos do leite também contém gorduras que apresentam reações em contato com a manteiga de cacau. Basicamente, a gordura do leite diminui a taxa de cristalização da manteiga de cacau. Por essa razão, o chocolate ao leite e o chocolate branco são mais sensíveis em relação a alta temperatura do que o dark chocolate.Aromatizantes

A baunilha é o sabor padrão utilizado durante a produção de chocolate. A baunilha adiciona nuâncias florais e de creme que complementam o amargo do cacau para a formulação do sabor do “chocolate”.Lecitina

Praticamente todos os chocolates contém traços de lecitina. A lecitina é extraída da soja e tem função de emulsificador. É importante destacar que o chocolate não contém água, então não pode ser considerado uma emulsão, mas uma suspensão de partículas sólidas em gordura. A função principal da lecitina não é emulsificar, mas reduzir a viscosidade do chocolate.

Tipos de chocolate

Os chocolates são classificados de acordo com a quantidade de Chocolate Liquor. Basicamente, os chocolates podem ser classificados em três principais tipos:

  • Chocolate ao Leite: no mínimo 10% de chocolate liquor.
  • Chocolate Dark (inclui amargo e meio-amargo): no mínimo 35% de chocolate liquor.
  • Chocolate Amargo: não há presença de chocolate liquor. Contém manteiga de cacau.

Por que temperar o chocolate?

Uma das tarefas mais árduas para trabalhar com o chocolate é a fase de temperagem. Para criar bombons com alta qualidade, com aparência brilhante e sem manchas, é necessário temperar o chocolate antes de utilizá-lo. Mas o que é isso?

A fase de temperagem está ligada diretamente com a questão do polimorfismo da mateiga de cacau. Existem seis tipos de cristais que a manteiga de cacau pode formar de acordo com determinas temperaturas:

  • Tipo I – 18ºC
  • Tipo II – 22ºC
  • Tipo III – 26ºC
  • Tipo IV – 29ºC
  • Tipo V – 34ºC
  • Tipo VI – 36ºC

A tabela acima traz as informações sobre em qual temperatura cada cristal é formado. Por exemplo, os cristais do tipo I são formados na temperatura de 18ºC. Se o chocolate for esquentado até 20ºC, todos os cristais de tipo I serão dissolvidos. É importante citar que apenas dois tipos de cristais (V e VI) são considerados estáveis para atribuir as características de brilho e perfeição ao chocolate. Sendo assim, a técnica de temperagem apenas visa manipular as temperaturas para que, inicialmente, todos os cristais sejam dissolvidos, e posteriormente sejam formados apenas cristais dos tipo V e VI.

Para temperar o dark chocolate, por exmeplo, precisamos aquecê-lo até 40ºC para que todos os cristais sejam dissolvidos. Após isso, devemos esfriá-lo até 27ºC, formando cristais do tipo IV, V e VI. Como já foi citado, apenas os cristais V e VI são estáveis, então devemos aquecê-lo novamente até a temperatura de 32ºC para que os cristais de tipo IV sejam dissolvidos, mantendo apenas os de tipo V e VI.

Existem diversas técnicas para temperar o chocolate. Uma delas,  talvez a mais utilizada, é a marmorização. Após aquecer o chocolate, deve-se espalhá-lo por uma superfície de mármore e misturá-lo levemente com uma espátula. O contato com o mármore faz com que a sua temperatura diminua (até o desejado, no caso, 27ºC). Após isso basta apenas aquecê-lo novamente até 32ºC, e o chocolate estará pronto para o manuseio.

Os dados de temperatura apresentados correspondem apenas ao dark chocolate. Para o chocolate ao leite e o chocolate branco, deve-se utilizar as seguintes temperaturas durante a fase de temperagem:

  • Ao Leite – aquecer o chocolate até 40ºC, depois esfriá-lo para 27ºC e aquecê-lo para 30ºC.
  • Branco - aquecer o chocolate até 40ºC, depois esfriá-lo para 27ºC e aquecê-lo para 28ºC.

Dica: eu usei como referência o livro Chocolate and Confections – formula, theory and techique for the artisan confectioner do Instituto de Culinária da América. Para mim, este é o melhor livro sobre chocolate na atualidade. Traz informações detalhadas sobre a produção do chocolate e também algumas deliciosas receitas. Eu recomendo!



Actions

Information

One response

11 04 2010
Em busca da trufa perfeita… « Diogo Cortiz da Silva

[...] Na semana passada, em meio ao espírito de páscoa, com propagandas de chocolate pra lá e pra cá, eu decidi preparar trufas com os chocolates belgas Callebaut e Belcolade (são vendidos em pacotes de 2,5Kg em algumas importadoras em São Paulo). É importante citar que é praticamente um consenso que os melhores chocolates do mundo são os belgas, os suíços e os franceses, não porque os territórios dessas nações tenham os melhores “grand crus”, mas devido ao fato das marcas presentes nesses países serem donas das melhores plantações de cacau ao redor do mundo (ver o post para ter mais informações sobre o chocolate). [...]

Leave a comment