Qual a diferença entre um país que está em crescimento econômico e um país desenvolvido? Um país economicamente “rico” é necessariamente um país desenvolvido? A resposta imediata para essas questões é não. Há uma grande diferença entre um país que está em crescimento e outro que está em fase de desenvolvimento.
Constantemente, ouvimos em noticiários dados referentes ao Produto Interno Bruto (PIB) de um país, também chamado de produto agregado, que é a soma de todos os bens e serviços finais produzidos dentro das fronteiras de uma nação. O PIB é uma variável interessante para ser utilizada como indicador econômico, pois permite mostrar a capacidade de geração de renda de um determinado país. Porém, se a idéia é mostrar a “qualidade de vida” da população, o produto agregado torna-se ineficiente.
Por exemplo, de acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2009, as 15 maiores economias em 2007 foram:
| Posição | País | PIB 2007 (Mil Milhões de USD) |
| 1 | Estados Unidos | 13.751,40 |
| 2 | Japão | 4.384,30 |
| 3 | Alemanha | 3.317,40 |
| 4 | China | 3.205,50 |
| 5 | Reino Unido | 2.772,00 |
| 6 | França | 2.589,80 |
| 7 | Itália | 2.101,60 |
| 8 | Espanha | 1.436,90 |
| 9 | Canadá | 1.329,90 |
| 10 | Brasil | 1.313,40 |
| 11 | Federação Russa | 1.290,10 |
| 12 | Índia | 1.176,90 |
| 13 | México | 1.022,80 |
| 14 | Coreia Republica | 969,80 |
| 15 | Austrália | 821,00 |
Tabela 1 – PIB 2007 (Valores absolutos – sem PPC)
A economia da China aparece como a 4ª maior do mundo na ótica do produto agregado, que mostra o quanto a China foi capaz de produzir em 2007. Porém, é notório que um país com uma população grande é capaz de produzir mais do que um país com uma população menor. Sendo assim, outra variável que passa a ser muito utilizada é PIB per capita, que mede o produto da economia de um país em contraste com o tamanho da sua população. A Tabela 2 está populada com dados referentes ao PIB per capita, retirados também do Relatório de Desenvolvimento Humano de 2009:
| Posição | Países | PIB Per Capita |
| 1 | Luxemburgo | 103.042,00 |
| 2 | Noruega | 82.480,00 |
| 3 | Qatar | 64.193,00 |
| 4 | Islândia | 64.190,00 |
| 5 | Irlanda | 59.324,00 |
| 6 | Dinamarca | 57.051,00 |
| 7 | Suíça | 56.207,00 |
| 8 | Suécia | 49.662,00 |
| 9 | Países Baixos | 46.750,00 |
| 10 | Finlândia | 46.261,00 |
| 11 | Estados Unidos | 45.592,00 |
| 12 | Reino Unido | 45.442,00 |
| 48 | México | 9.715,00 |
| 58 | Brasil | 6.855,00 |
| 59 | Cazaquistão | 6.772,00 |
| 60 | Argentina | 6.644,00 |
| 103 | China | 2.432,00 |
| 104 | Geórgia | 2.313,00 |
A China que é a 4ª maior economia, com base no produto agregado, despenca drasticamente quando se utiliza o PIB per capita, pois o alto valor do seu PIB recai sobre o tamanho de sua população. O mesmo acontece com o Brasil e os Estados Unidos, por exemplo.
O PIB per capita remonta à questão da geração de renda em um país, mas não nos diz de qual forma ela é divida entre a população, o que é fator muito importante, pois se for uma divisão muito desigual, essa situação pode impactar diretamente na qualidade de vida das pessoas. O Brasil é um exemplo clássico de país que tem um dos piores indicadores de distribuição de renda no mundo, causando um alto nível de desigualdade na população (embora esse cenário tenha melhorado nos últimos anos).
É de extrema importância analisar até que ponto a renda gerada por um determinado país reverte-se em benefícios para a população, como educação, saúde e saneamento. Em outras palavras, é preciso avaliar a qualidade de vida da população em contraste com o nível econômico do país, moldando o confronto entre crescimento econômico X desenvolvimento humano.
O crescimento econômico diz respeito à elevação do produto agregado do país, ou seja, o crescimento do PIB. Já o desenvolvimento é um conceito extremamente amplo que leva em consideração questões como qualidade de vida e redução das diferenças sociais entre os membros de uma sociedade. Um aumento do PIB de um país, por exemplo, não significa necessariamente uma elevação da qualidade de vida da população, embora seja fundamental para o processo de desenvolvimento. É importante ressaltar também que para medir o desempenho econômico de um país, o mais recomendável é a utilização do PIB per capita e não o produto agregado (PIB).
Mas de qual maneira podemos analisar a situação social e a qualidade de vida de um país? Um dos pontos mais importantes é a distribuição de renda, que pode ser analisado a partir de um índice denominado índice de Gini. Esse índice varia entre zero e 100 (muitas vezes também é apresentado entre zero e 1). Quanto maior o número, ou seja, quanto mais próximo de 100 ou 1 (dependendo da escala utilizada), indica que pior é a distribuição de renda no país; quanto mais próximo de zero, melhor a distribuição.
No caso do Brasil, segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano, o índice Gini é 55,00. Nos Estados Unidos esse índice chega a 40,8 e na Noruega bate os incríveis 25,8. No quesito desigualdade de distribuição de renda, o Brasil chega a perder inclusive para os países vizinhos, que mesmo com um PIB menor, conseguem melhores índices no indicador Gini, como é o caso da Argentina, com seu índice batendo em 50,0. A China, quarta maior economia, apresenta o índice Gini de 41,5.
Mas além do índice Gini, existem outros meios de medir a qualidade de vida de uma população, como as estatísticas baseada na linha da pobreza, indicadores de perfis distributivos e também o mais famoso índice de desenvolvimento humano (IDH). Esses indicadores sociais são os determinantes do nível de desenvolvimento de um país. Como já visto anteriormente, um crescimento econômico não está atrelado diretamente ao desenvolvimento, pois se o primeiro for muito concentrado, ou seja, pouco distribuído, uma grande parcela da população não está se beneficiando da elevação de renda gerada na economia.
O IDH é um índice criado pela ONU (Organização das Nações Unidas) com o objetivo de medir o desenvolvimento “social” de um país, uma vez que é difícil mensurar a qualidade de vida da população com base apenas nos indicadores econômicos. O IDH agrega em sua metodologia três principais vertentes:
- Um indicador de renda (renda per capita, ajustada para refletir a paridade do poder de compra)
- Um indicador das condições de saúde, que nada mais é do que o índice de esperança de vida.
- Um indicador das condições de educação (uma média ponderada dos seguintes indicadores: taxa de alfabetização de adultos e a taxa de escolarização bruta em relação ao ensino primário, secundário e superior).
Segue abaixo as fórmulas utilizadas para calcular o IDH:
- IDH = E + S + R / 3
- E = 2TA + TE / 3
- S = EV – 25 / 60
- R = log10 PIBpc – 2 / 2,60206
- Onde, TA = taxa de alfabetização, TE = taxa de escolarização, EV = esperança de vida, log10PIBpc = logaritmo decimal do PIB per capita.
A essência fundamental do IDH é que todo o crescimento econômico deve vir acompanhado de uma elevação da qualidade de vida da população, como aumento da expectativa de vida e expansão das condições de educação, refletindo assim um nível maior de desenvolvimento.
Depois de uma série de manipulações estatísticas (fórmulas citadas anteriores), esses três componentes, se transformam em um número que varia entre zero e um. Quanto maior o valor IDH, ou seja, quanto mais próximo de 1, melhor é a qualidade de vida da nação. Abaixo está a tabela com o nível de classificação dos países:
- IDH de um país entre 0 e 0,499, é considerado baixo – país de desenvolvimento baixo
- IDH de um país entre 0,500 e 0,799, é considerado médio – país de desenvolvimento médio
- IDH de um país entre 0,800 e 0,899, é considerado elevado – país de desenvolvimento elevado
- IDH de um país entre 0,900 e 1, é considerado muito elevado – país de desenvolvimento muito elevado
A tabela abaixo está populada com o ranking IDH 2009 (dados de 2007), retirado do Relatório de Desenvolvimento Humano 2009.
De acordo com essa tabela, o país mais desenvolvido, ou que apresenta a melhor qualidade de vida é a Noruega. O Brasil, que apareceu na primeira tabela como sendo a 10ª maior economia, agora aparece na posição 75º do ranking IDH. Essa situação ilustra claramente a diferença entre crescimento econômico e desenvolvimento. Nem sempre um país “rico” tem condições humanas de um país desenvolvido, e a grande parcela de culpa está no fato da desigualdade da distribuição de renda. O Brasil teve uma pequena queda na desigualdade no ano passado, e o programa Bolsa Família foi um dos responsáveis por essa melhora. Eu não estou defendo o governo Lula e nem exaltando o Bolsa Família, mas quero simplesmente demonstrar que um programa de transferência de renda pode trazer bons resultados para tais índices vistos anteriormente.
