Feira Livre, um espaço ainda offline….

31 05 2010

Inacreditável! No coração de São Paulo, uma das maiores cidades do mundo, é possível encontrar  diariamente espaços que nos transmitem uma sensação de estar imerso no passado, de ter voltado no tempo em algumas décadas, talvez, alguns séculos – esses lugares são as feiras livres, presentes em muitas cidades do mundo.

As Feiras Livres são fenômenos econômicos e sociais antigos, que já eram conhecidos até mesmo na época do império romano, embora tenham manifestado força logo após a sua queda.  Muito provavelmente surgiram a partir da necessidade das pessoas de se reunirem em um lugar pré-determinado para a realização de venda e troca de produtos. Esse fenômeno cresceu, expandiu-se geograficamente e tornou-se contemporâneo.

Ainda hoje, elas têm um papel fundamental no abastecimento de frutas e verduras em grandes cidades. Embora as principais redes de supermercados também operem com a seção de hortifruti, nada melhor do que visitar uma feira livre para adquirir determinados produtos. Se você for preparar um prato especial, não perca tempo, vá até uma próxima a sua casa para escolher os seus ingredientes. Sinta os cheiros das verduras, legumes e frutas; transmita esse baile aromático para a sua preparação, e extraordinário será o resultado.

A feira é sem dúvida um espaço pitoresco – luzes, cores, aromas e sons se misturam de maneira única. As cores das diversas frutas e verduras trazem uma sensação de beleza e alegria. A luz do sol que penetra pelos toldos das barracas permite uma iluminação incrível. Às vezes, entre uma barraca e outra, um raio de sol invade o cenário de forma direta, permitindo assim um contraste essencial entre luz e sombra.

Os cheiros se misturam de uma forma inusitada, transmitindo a sensação de que as frutas e verduras brigam para conquistar o seu olfato. Há igualmente outro confronto, interessante e pacífico, que merece ser destacado: dessa vez entre os próprios feirantes, que duelam entre si exaltando que seus produtos são os melhores e os mais baratos.

Há também os vendedores que contam piadas. Outros que são amigos dos seus clientes. Têm aqueles que oferecem degustação de seus produtos para fisgar a clientela. O perfil dos frequentadores é o mais diverso possível. Senhoras, senhores, senhoritas e rapazes. Mães e filhos. Famílias completas. Pessoas com poder aquisitivo alto e os menos favorecidos frequentam a mesma feira – talvez por aproximidade das suas residências. As feiras livres talvez sejam um dos lugares com o público mais diverso por metro quadrado.

Enquanto visitava esse “evento cultural” perto de minha casa esse fim de semana, relembrei do meu tempo de criança, quando costumava ir à feira com a minha avó. Notei que a sua estrutura permanece intacta, um espaço totalmente desconectado, mesmo estando envolto por um ambiente repleto de tecnologia como é a cidade de São Paulo.

Nas feiras livres não há quase nenhum desenvolvimento tecnológico desde as últimas décadas, talvez uma balança eletrônica e só. Não há sistemas de automação, os registros de vendas e estoques são feitos em caderninhos dos próprios feirantes. Muitas vezes, não há nem mesmo um terminal eletrônico de cartão de crédito. As suas aparências remontam alguns séculos atrás, e por isso comecei esse post dizendo que são espaços onde ainda hoje, mesmo com todas as nossas vidas imersas em tecnologias cada vez mais ferozes, nos permitem sentir a essência da vida – o aperto de mão, a troca de olhares, a exaltação de todos os nossos sentidos.

É importante destacar que a feira livre é ainda um dos poucos espaços totalmente offline na atualidade. Se é bom ou ruim, eu não sei responder. Eu só sei que é diferente, um lugar apaixonante. Mas confesso que fico curioso ao imaginar como seriam, se os feirantes usassem Twitter…… ;)

Abaixo um slideshow com as fotos que eu tirei esse fim de semana em uma feira livre de São Paulo:

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Resenha – Corra Lola Corra

28 04 2010

Resenha do filme Corra Lola Corra

 

Corra Lola Corra é um filme alemão dirigido pelo diretor Tom Tywer, que destaca vigorosamente a constituição da sociedade no periodo contemporâneo. Repleto de sons e imagens envolventes, o longa-metragem traz questões referentes a importânica do tempo nos dias atuais.  A velocidade demonstrada na obra remete ao modelo de produção em série, onde cada minuto é precioso, onde a “fábrica” nunca deve parar. É possível perceber essa analogia pelo fato de Lola correr alucinadamente para alcançar o seu objetivo, um cenário onde cada minuto torna-se de extrema importância para o personagem.

Na história do filme, Lola precisa conseguir uma grande quantidade de dinheiro para livrar seu namorado de uma quadrilha para qual ele trabalha. Porém, a personagem tem apenas um curto espaço de tempo para alcançar tal façanha. Lola transforma-se então em uma máquina, um conjunto de mecanismos que precisar produzir (no caso, conseguir a quantia necessária de dinheiro) em um curto espaço de tempo. A partir dessa ótica, pode-se evidenciar a ligação de Corra Lola Corra com o filme Tempos Modernos de Charlie Chaplin, onde também o tempo, principalmente relacionado com a linha de produção, é evidenciado.

O tempo tornou-se uma característica intrínseca ao capitalismo. Os economistas clássicos também já destacaram essa relação em momentos anteriores. Adam Smith defendeu a divisão do trabalho, que seria favorável para o aumento da produtividade a partir da especialização em pequenas tarefas por parte dos trabalhadores e também a economia de tempo na passagem de uma tarefa para outra. Assim, tanto com base nos filmes Corra Lola Corra e Tempos Modernos, como também nas obras dos pensadores econômicos clássicos, é inevitável a associação da importância do tempo para a o modelo de produção capitalista.

Mas o filme Corra Lola Corra também aponta diversas questões que remetem a vida contemporânea, descolando-se assim de idéias apresentadas em Tempos Modernos. Corra Lola Corra é um filme de 1998 e Tempos Modernos de 1936, essa divergência entre os espaços de tempo é notória para que a sociedade sofresse determinadas transformações em seu modelo de constituição.

Em Tempos Modernos, a linha de produção é o enfoque central, onde todos executam uma tarefa especializada (divisão trabalho) de maneira sacal. Todos os trabalhadores são considerados instrumentos básicos de produção, onde embora cada um executa uma tarefa específica, como simples elementos de produção. Essa afirmação pode ser exemplificada quando no filme (Tempos Modernos), há uma cena onde todos os trabalhadores chegam à fábrica vestidos de maneira parecida, cada qual com o seu chapéu, mas sem nenhuma identidade própria para ser demonstrada.

Já em Corra Lola Corra acontece exatamente o oposto, ainda que o tempo continue como fator elementar, o modelo de produção destacado no filme de Charlie Chaplin é colocado de lado. Lola é uma personagem com identidade diversificada do padrão da sociedade na época, cabelos vermelhos e roupas não comuns. Mani, seu namorado, não possui um emprego formal e tradicional, mas está envolvido com crimes. Ambos os personagens fogem do padrão, e essa questão mostra as transformações da sociedade do período de Tempos Modernos até os dias atuais. Mas, embora tenha ocorrido muitas modificações, o tempo continua um elemento fundamental para todos que vivem no capitalismo. E foi justamente o fator tempo que causou todo o desenrolar do filme Corra Lola Corra, pois a personagem principal, Lola, não estava no momento combinado para buscar o seu namorado após uma de suas missões.





Um pouco de Platão, Aristóteles e Darwin: contrapontos

8 09 2009

Muitos dizem que a filosofia traduz a capacidade do ser humano de admiras as coisas a sua volta. Assim, qualquer pessoa é um pouco filósofa e é claro que a filosofia passou por muitas transformações, com o surgimento de diferentes projetos filosóficos e muitos personagens ao longo da história da humanidade. Desde Tales, considerado um filósofo da natureza, até Nietzche, passando por Descartes, Kant, entre outros. A viagem da história da filosofia é algo realmente fascinante. Vale lembrar que 2009 é chamado o “ano de Darwin”, então nada mais interessante do que apresentar contrapontos entre alguns filósofos e o próprio Darwin.

Um dos principais  filósofos da Antiguidade foi Platão. Particularmente, eu julgo a teoria de Platão singular, bastante importante para a sua época, mas talvez um pouco “romântica” para os dias atuais, principalmente pelos contrapontos apresentados por outros filósofos. É notório o papel fundamental que Platão desenvolveu na história da filosofia, principalmente por ter sido discípulo de Sócrates, sendo o responsável por divulgar sua posição filosófica, além de ter fundado a Academia de filosofia em Atenas.

O projeto filosófico de platão, o que podemos chamar também de filosofia platônica, aborda a noção que o homem está em contato com duas realidades distintas: inteligível e sensível. A realiadade inteligível também pode ser chamada de “Mundo das Idéias”, uma realidade imutável, onde existem as “formas” de tudo o que encontramos no mundo real através de nossos sentidos, por isso é chamada de realidade sensível.

Para Platão, nós vivemos no mundo senvível onde percebermos as idéias formuladas (no mundo das idéias, é claro) através de nossos sentidos. Em outras palvaras, quando vemos um cavalo, esse elemento nada mais é do que uma réplica da idéia cavalo que existe na realidade inteligível, onde por sua vez, a sua forma é imutável. Seguindo essa linha, é possível afirmar que a alma, poderia habitar o “mundo das idéias” antes de estar em contato com o nosso corpo, e consequentemente com a realidade sensível.

Já Aristóteles, foi alundo de Platão na sua Academia de filosofia, e apresentou um projeto filosófico ao contrario do seu mestre. Aristóteles, um dos percussores do empirismo, defendia que toda e qualquer idéia passa primeiro pelos nossos sentidos para atingir nossa realidade inteligível. Assim, não haveria uma idéia a priori, mas que o homem perceberia todas as coisas inicialmente a partir de seus sentidos. A posição de Aristóteles é totalmente contrária ao de Platão, que defende que existem idéias imutáveis na realidade inteligível.

Mas o que tem Darwin a ver com tudo isso?

Darwin, com a sua teoria da evolução, praticamente “selou” como inconsistente o projeto platônico de filosofia. Platão defendeu que tudo o que experimentamos é na verdade um reflexo das idéias imutáveis da realidade inteligível. Em contrapartida, Darwin mostrou a evolução das espécies, inclusive do ser humano. Mas como isso seria possível se analisarmos o trabalho de Darwin a partir da ótica de Platão? Darwin defendeu que o homem passou por diversas evoluções, mas será que a idéias também evoluíram na realidade inteligível de Platão? Ou será que temos que defender a posição de Aristóteles, que os nossos sentidos são capazes de perceber essa evolução e assim, quem sabe,  atualizarem o “Mundo das Idéias”?